CASO MARCELO: Comerciante desaparecido mantinha relacionamento oculto com principal suspeito, aponta inquérito

Lucas Padula
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Segundo a polícia, Marcelo (à esquerda) teria ido ao encontro com Lucas (à direita), quando foi abordado - Foto: Reprodução

A investigação da Polícia Civil sobre o desaparecimento e a morte do comerciante Marcelo Magalhães de Almeida, em Carapicuíba, ganhou novos contornos com os depoimentos reunidos no inquérito policial. Além de apontar três suspeitos pela participação no crime, os investigadores afirmam ter identificado um relacionamento oculto entre a vítima e o principal investigado, Lucas Soares de Lima, conhecido como “Quadrada”.

A representação pela prisão temporária de Lucas Soares de Lima, Paulo Sérgio Soares de Almeida e Júlio César Moura Batista sustenta que há “robustos elementos informativos” indicando que o trio participou do sequestro, da execução e da ocultação do cadáver de Marcelo. O corpo da vítima ainda não havia sido localizado quando o documento foi elaborado. 

Relacionamento escondido

Um dos pontos centrais do inquérito é o depoimento de Júlia Rebeca Ribeiro dos Santos, ex-companheira de Lucas Soares.

Ela afirmou aos policiais que Lucas admitiu ter sequestrado Marcelo e revelou que conheceu a vítima pelas redes sociais. Segundo seu relato, os dois mantinham um relacionamento amoroso reservado.

Ainda conforme o depoimento, Marcelo demonstrava forte interesse por Lucas, fazia presentes de alto valor e teria chegado a prometer um apartamento para ele. A testemunha afirmou também que Marcelo orientava Lucas a esconder as conversas para que ela não descobrisse o conteúdo das mensagens. 

Ao ser questionada diretamente pelos investigadores, Júlia declarou que tinha certeza de que os dois mantinham um relacionamento, pois eles se encontravam com frequência e Lucas mantinha contato constante com Marcelo.

Ela acrescentou acreditar que o crime pode ter ocorrido porque Lucas teria ficado com medo de ser denunciado pela vítima em razão do dinheiro e dos bens que recebia durante o relacionamento. Segundo a testemunha, Lucas dizia que não gostava de Marcelo, mas continuava mantendo o relacionamento de forma escondida. 

Lucas (à esquerda) teria tido ajuda de Paulo (à direita) para abordar, sequestrar, matar e ocultar o corpo de Marcelo – Foto: Reprodução

PIX de R$ 3,8 mil após o desaparecimento

O depoimento de Júlia também descreve uma movimentação financeira considerada importante para a investigação.

Ela contou que, poucas horas após o desaparecimento de Marcelo, Lucas enviou um PIX de aproximadamente R$ 3.800 para uma conta vinculada à sua família. Inicialmente, ele afirmou que o dinheiro seria produto do roubo de uma motocicleta, mas depois pediu que ela sacasse os valores e não fizesse perguntas.

Posteriormente, quando questionou Lucas sobre o desaparecimento de Marcelo, ele teria respondido apenas para que ela retirasse R$ 500 e sacasse o restante do dinheiro. A testemunha acredita que a transferência saiu diretamente da conta da vítima. 

A Polícia Civil afirma que a mãe de Júlia confirmou o recebimento da transferência bancária proveniente de conta ligada a Marcelo, reforçando a linha investigativa sobre possível motivação patrimonial. 

Conversas reforçariam vínculo entre vítima e suspeito

Segundo o inquérito, os investigadores também apreenderam conversas entre Lucas e Marcelo.

Para a Polícia Civil, as mensagens demonstram a existência de um relacionamento reservado entre os dois e mostram a preocupação do investigado em manter o conteúdo das conversas escondido. 

Mãe do suspeito procurou a polícia

Outro depoimento considerado decisivo foi prestado por Zemira Santos Soares, mãe de Lucas e de Paulo Sérgio. Ela afirmou que Paulo Sérgio chegou à sua residência bastante abalado, dizendo que Lucas havia criado “um problemão” que poderia atingir toda a família.

Pouco depois, Lucas apareceu acompanhado de Júlia. Segundo a testemunha, ambos conversavam nervosamente e repetiam frases como “já viu, já fez”. Ao ser questionado sobre o que havia acontecido, Lucas teria reagido de forma agressiva, ameaçando matar todos que estavam na casa.

Ainda conforme o depoimento, Lucas afirmou que, se tivesse recebido R$ 700 que havia pedido emprestado dias antes, “não teria que gastar com caixão e nada disso teria acontecido”. Após assistir às reportagens sobre o desaparecimento de Marcelo, Zemira decidiu procurar espontaneamente a Polícia Civil e entregou mensagens que mencionavam Lucas, Paulo Sérgio e Júlio César como participantes do crime.  

Investigação descartou versão sobre “tribunal do crime”

No início das investigações, Júlio César Moura Batista afirmou que Marcelo teria sido julgado e executado por integrantes do PCC em um “tribunal do crime”.

Entretanto, após diversas diligências, a Polícia Civil concluiu que essa versão apresentava inconsistências e teria sido criada para desviar o foco da investigação dos verdadeiros envolvidos.  

Provas reunidas

Na representação encaminhada ao Poder Judiciário, a Polícia Civil afirma que reuniu diversos elementos que sustentam a investigação, entre eles:

– imagens de câmeras mostrando o trajeto do veículo da vítima;

– indicação do cão farejador em locais por onde Marcelo teria passado;

– comprovação da transferência bancária ligada ao patrimônio da vítima;

– depoimentos convergentes apontando que Marcelo foi atraído, submetido à violência e morto;

– fuga de Lucas Soares durante tentativas de abordagem policial, o que, segundo os investigadores, demonstra intenção de escapar da aplicação da lei. 

Com base nesses elementos, a Polícia Civil representou pela prisão temporária dos três investigados pelos crimes de homicídio qualificado, ocultação de cadáver e outros delitos patrimoniais que ainda seguem sendo apurados.

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