Cerca de 25 mil pessoas participaram de uma manifestação no centro de Madri no sábado (26/9), segundo dados do governo, em um protesto motivado pela crise habitacional na Espanha e pelo despejo de uma mulher de 87 anos. Aproximadamente 500 manifestantes montaram acampamento na Puerta del Sol, uma das principais praças da capital, e afirmaram que permaneceriam no local até que as autoridades apresentassem respostas às reivindicações relacionadas à moradia. Fonte: governo espanhol e imprensa espanhola.
Os participantes levaram cartazes com frases como “Todos somos Maricarmen”, “Expropriar os rentistas” e “Ação direta e ocupação”. Também foram vistas bandeiras da Palestina e símbolos de sindicatos e movimentos sociais. Durante o ato, foram realizadas assembleias, oficinas, discursos e apresentações musicais.
O caso que desencadeou a mobilização envolve María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen. Aos 87 anos, ela deixou na última quarta-feira o apartamento em Madri onde morava como inquilina havia cerca de 70 anos.
A Justiça considerou encerrado o contrato firmado em 1956 e posteriormente herdado pela idosa. Os tribunais deram razão à Urbagestión, empresa proprietária do imóvel, que buscava retomar a posse da propriedade.
O Sindicato dos Inquilinos de Madri, uma das organizações envolvidas nos protestos, defende restrições à compra de imóveis por pessoas ou empresas que não pretendam utilizá-los como residência. O grupo adotou como lema: “Ou o rentismo cai ou o governo cai”. Na definição utilizada pelo movimento, rentistas são proprietários que obtêm renda com imóveis alugados sem precisar morar neles.
As críticas dos manifestantes são direcionadas tanto ao governo nacional quanto às administrações regionais e municipais. Entre as principais reivindicações estão mudanças nas regras de aluguel, despejo e propriedade de imóveis.
O movimento defende que os contratos de locação tenham duração indeterminada ou renovação automática. Dessa forma, o inquilino poderia decidir pela permanência no imóvel depois do período inicialmente estabelecido.
Outra reivindicação é o congelamento dos aluguéis. O Sindicato dos Inquilinos também pede restrições a despejos quando não houver uma alternativa de moradia, além de medidas contra locações de temporada e por quartos.
A organização ainda defende a expropriação de imóveis pertencentes a empresas e fundos de investimento classificados pelo movimento como “fundos abutres”.
Os protestos acontecem enquanto os valores de compra e aluguel de imóveis avançam na Espanha, principalmente nos grandes centros urbanos. Dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que os preços dos imóveis subiram 12,2% no segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. Na Comunidade de Madri, a alta chegou a 12,9%.
A valorização ocorre paralelamente à redução da oferta de moradias. De acordo com dados do Banco da Espanha, o país construiu entre 2021 e 2025 cerca de 750 mil unidades a menos do que seria necessário para acompanhar a formação de novos lares.
As propostas apresentadas pelo Sindicato dos Inquilinos também são alvo de críticas de economistas. Parte dos especialistas defende que a ampliação da oferta de imóveis é fundamental para reduzir a pressão sobre os preços.
Entre os argumentos contrários às restrições está a possibilidade de que proprietários retirem imóveis do mercado de locação caso tenham menos liberdade para reajustar contratos ou recuperar suas propriedades. Também existe a preocupação de que regras mais rígidas reduzam o interesse em reformas e novos investimentos no setor.
Um estudo publicado pelo Banco da Espanha em 2020 apontou que limites para os aluguéis podem diminuir os valores dos contratos submetidos à regulação no curto prazo, mas também podem reduzir a oferta de imóveis, prejudicar a manutenção das unidades e elevar os preços das propriedades que ficam fora das regras de controle.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que pretende apresentar um decreto sobre moradia na reunião do Conselho de Ministros prevista para terça-feira. A proposta deverá contemplar parte das reivindicações apresentadas pelos manifestantes.
Como o governo de Sánchez não possui maioria no Parlamento, o primeiro-ministro também pediu apoio de outras bancadas para aprovar a medida. O conteúdo do decreto ainda estava em negociação.
A vice-presidente Yolanda Díaz, integrante do partido de esquerda Sumar e parceira do PSOE na coalizão governista, declarou apoio aos protestos e defendeu ações contra fundos imobiliários.
A porta-voz do Sindicato dos Inquilinos, Alicia del Río, afirmou no domingo que o acampamento permanecerá na Puerta del Sol se o decreto não estabelecer contratos por prazo indeterminado, segundo a agência EFE.
O sindicato também solicitou às centrais CCOO e UGT que avaliem a convocação de uma greve geral caso as medidas defendidas pelo movimento não sejam aprovadas.
O Partido Popular (PP), principal grupo de oposição e de orientação de centro-direita, apresentou alternativas para enfrentar a crise habitacional. Entre as propostas estão a retirada de áreas de controle de aluguel e a ampliação de garantias para facilitar a aquisição de imóveis por jovens.
A Prefeitura de Madri, administrada pelo PP, criticou a permanência dos manifestantes na Puerta del Sol e acusou o governo nacional de “omissão de funções”. A administração municipal também pediu que o espaço voltasse à normalidade e questionou a continuidade do acampamento após o período autorizado.
As manifestações não ficaram restritas à capital. Barcelona, Alicante e Santiago de Compostela também registraram atos relacionados à crise habitacional após o despejo de Maricarmen.
Segundo veículos da imprensa espanhola, manifestações foram convocadas em cerca de 40 cidades do país para pressionar as autoridades por medidas diante do aumento dos aluguéis.
