O candidato à Presidência da República pelo Missão, Renan Santos, afirmou em entrevista ao g1 e à GloboNews, nesta quarta-feira (5), que pretende negociar com parlamentares do Centrão caso seja eleito. Apesar de já ter chamado integrantes do grupo de “parasitas”, ele disse que reconhece a necessidade de conversar com deputados e senadores para viabilizar propostas de seu governo. Entre os projetos que dependeriam dessa articulação está a PEC Fiscal, que prevê medidas para reduzir despesas públicas.
Durante a entrevista, Renan afirmou que estaria disposto a dividir a PEC Fiscal em partes para tentar facilitar sua tramitação no Congresso. A proposta inclui mudanças como a desvinculação de recursos destinados à saúde e à educação e a desindexação de benefícios relacionados ao salário mínimo. A conversa foi conduzida pelas jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, nos estúdios da GloboNews, no Rio de Janeiro.
Relação com o Centrão e possível confronto com o STF
Ao falar sobre sua postura crítica ao sistema político e ao Centrão, Renan afirmou que sua eventual chegada à Presidência mudaria a forma como se relacionaria com os parlamentares. O candidato disse que se considera um político “antissistema”, mas ressaltou que conhece a dinâmica do Congresso e que pretende negociar para aprovar suas propostas.
“Eu aceito a alcunha do antissistema no sentido de que eu não participo do grande jogo e seus vícios, mas eu entendo o funcionamento da fábrica de salsichas que é o Congresso Nacional”, afirmou, ao lembrar sua participação na organização de manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Renan voltou a defender o uso do termo “parasitas” para se referir ao Centrão, mas afirmou que as críticas não impediriam uma eventual negociação. Segundo ele, existe uma diferença entre sua atuação como militante e o comportamento que adotaria caso assumisse a Presidência.
“Assim como existe o momento de eu ser o Renan militante do MBL, existe o momento de eu ser o Renan presidente no partido Missão e existe o momento também dos candidatos, dos partidos adversários, apontarem os problemas e o momento de eles sentarem na mesa para poder discutir projetos”, afirmou.
Outro tema abordado foi a relação entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal (STF). Renan declarou que poderia deixar de cumprir uma decisão da Corte caso entendesse que ela fosse ilegal. Ele citou especialmente decisões monocráticas que, na avaliação dele, ultrapassassem os limites das atribuições do Supremo.
“Se o Supremo Tribunal Federal tomar uma decisão ilegal, decisão ilegal não se cumpre. Ponto”, afirmou.
O candidato também disse que não acataria uma determinação judicial que, segundo sua interpretação, interferisse indevidamente nas competências do Legislativo ou do Executivo.
“Eu serei um presidente, não um boneco.”
Apesar da posição, Renan afirmou que buscaria discutir a decisão com os ministros do Supremo antes de tomar qualquer medida. Para ele, o presidente precisa exercer as atribuições previstas para o cargo.
“Lógico que eu vou discutir junto ao STF. Eu não vou cumprir imediatamente uma decisão que é ilegal. Eu não vou cumprir. É errado isso. Eu tenho que cumprir meu papel de presidente”, disse.
Questionado sobre quem teria autoridade para definir se uma decisão seria ilegal, Renan afirmou que a própria Constituição estabeleceria os limites. Ele também citou o cumprimento dos procedimentos legislativos como argumento para sustentar sua posição.
“Não. A Constituição diz. Se eu cumprir o devido processo legal numa medida, ela passou no Congresso Nacional, eu cumpri todos os ritos, não pode vir uma decisão monocrática para o estrito cumprimento da lei. Até porque eu estaria prevaricando.”
Segurança pública e o slogan ‘Prendeu, matou’
Renan também foi questionado sobre o slogan “prendeu, matou”, apresentado durante a convenção do Missão, realizada em 1º de agosto. A declaração repercutiu por associar a expressão a uma proposta de endurecimento da política de segurança pública.
Ao explicar o significado da frase, o candidato afirmou que pretendia defender uma diferenciação mais rígida entre criminosos e cidadãos dentro da atuação do Estado.
“O que eu estou avisando é o approach. A resposta que a Presidência da República tem que dar é o bandido ser tratado como bandido e o cidadão como cidadão”, respondeu.
Renan afirmou que a mensagem tinha como objetivo sinalizar uma postura “dura” diante da criminalidade. Quando questionado se o slogan significaria que a política de segurança seria baseada na morte de criminosos, ele rejeitou essa interpretação e classificou a leitura como “confusa”.
Segundo o candidato, a intenção da frase seria fazer uma provocação em relação ao que considera uma política de segurança excessivamente permissiva.
“Hoje a regra ‘prendeu, soltou’, a provocação do ‘prendeu, matou’ é: você tem que ter dois caminhos. o prendeu, o matou, não tem outro caminho.”
Referência a Bukele e política de segurança
A entrevista também abordou a admiração já manifestada por Renan pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Questionado sobre o modelo de segurança adotado no país, o candidato negou que tenha intenção de reproduzir no Brasil práticas como prisões sem mandado judicial, julgamentos coletivos ou detenções baseadas exclusivamente em denúncias anônimas.
O candidato afirmou que sua defesa de medidas mais rigorosas contra a criminalidade não significa, segundo ele, que pretende importar integralmente o modelo salvadorenho.
Série de entrevistas com candidatos à Presidência
A conversa com Renan Santos integra uma sequência de entrevistas com presidenciáveis. Lula (PT) havia sido escolhido por sorteio para abrir a série na terça-feira (4), mas informou que não participaria.
Romeu Zema (Novo) está previsto para participar da entrevista na quinta-feira (6), enquanto Ronaldo Caiado (PSD) deve ser entrevistado na sexta-feira (7). Flávio Bolsonaro (PL) tem participação prevista para segunda-feira (10), mas ainda não havia confirmado presença.
