Uma mulher de 62 anos foi resgatada na última quinta-feira (2) após viver por mais de 50 anos em condições análogas à escravidão dentro de um imóvel localizado em um condomínio de luxo no município de Eusébio, na região metropolitana de Fortaleza. Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT), ela começou a trabalhar para a mesma família aos sete anos de idade e jamais recebeu remuneração mensal. Durante a fiscalização, a empregadora afirmou que a vítima “Foi dada pela mãe”.
Os auditores concluíram que a trabalhadora permaneceu submetida por décadas a uma relação de exploração marcada pela ausência de salário, dependência econômica, falta de acesso à educação e permanência contínua no mesmo núcleo familiar desde a infância, situação que, conforme o relatório, representa “elementos que caracterizam grave violação à dignidade humana”.
A identidade dos empregadores não foi divulgada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho. As investigações apontam que a mulher chegou à residência da família em 1971 e, desde então, permaneceu trabalhando para três gerações do mesmo grupo familiar, sem qualquer interrupção das atividades.
No momento do resgate, ela vivia na casa da bisneta da primeira empregadora. Entre suas responsabilidades estavam os cuidados diários de duas crianças, de 11 e 7 anos, o preparo das refeições e a realização de todas as tarefas domésticas indispensáveis ao funcionamento da residência.
A rotina começava por volta das 4h30 da manhã, quando preparava o café da família e organizava a saída das crianças para a escola. Durante o restante do dia, realizava limpeza da casa, preparo dos alimentos, organização dos ambientes e acompanhamento dos menores.
Mesmo apresentando hipertensão e episódios frequentes de mal-estar relacionados ao estresse, a trabalhadora continuava exercendo normalmente todas as atividades. Quando chegou à residência, ainda criança, também dividia os serviços domésticos com a irmã, cuja idade não foi confirmada. Enquanto os filhos da família tinham acesso à escola, as duas meninas permaneceram sem oportunidades de educação formal.
Após a morte da mãe, ambas continuaram vivendo com os empregadores. Conforme relataram a vítima e integrantes da própria família durante a fiscalização, ela teria sido “dada” por sua mãe a uma das filhas da antiga patroa. Desde então, acompanhou todas as mudanças ocorridas na família ao longo das décadas.
Em 1982, a mulher passou a morar na residência da filha da antiga empregadora, que havia constituído uma nova família. Nessa fase, assumiu os serviços domésticos e também os cuidados com os três filhos do casal.
Mais de três décadas depois, em 2014, ela foi novamente levada para outra residência pertencente ao mesmo grupo familiar, onde passou a cuidar da geração seguinte da família, acumulando a criação das crianças com todas as tarefas da casa.
A Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) identificou que, durante toda a vida laboral, a trabalhadora permaneceu sem salário regular, autonomia financeira ou acesso às mesmas oportunidades educacionais e patrimoniais desfrutadas pelos integrantes da família para a qual trabalhava.
A fiscalização também constatou que a vítima estava inscrita no Cadastro Único e recebia R$ 600 mensais do Programa Bolsa Família. Segundo a investigação, a empregadora realizava os saques do benefício e depois entregava o valor à trabalhadora.
Em entrevista ao g1, a auditora-fiscal do Trabalho Maria Neuzeli Arantes afirmou que esse benefício era utilizado como se fosse o “pagamento” da vítima. A auditora também declarou que houve fraude contra o Estado, pois a empregadora acompanhou a inscrição da doméstica no programa social e informou que ela era “unifamília” e estava desempregada.
