Caixa-preta revela piloto comparando avião da Voepass a um “Fusquinha” e admitindo falha no sistema

Patricia Calderon
5 min de leitura
Voepass (Foto Reprodução Redes Sociais)

A Polícia Federal encerrou o inquérito que investigou as possíveis responsabilidades criminais e civis relacionadas à queda do voo 2283, da Voepass, que deixou 62 mortos em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024. O resultado da apuração será detalhado nesta quinta-feira (6), em uma coletiva de imprensa programada para ocorrer três dias antes do primeiro aniversário do acidente.

A investigação aponta que o ATR-72 iniciou o voo mesmo apresentando problemas já conhecidos no sistema de degelo, equipamento destinado a evitar a formação de gelo nas asas. O trabalho dos investigadores também identificou possíveis responsabilidades relacionadas à manutenção, à autorização para que o avião permanecesse em operação e aos procedimentos adotados pela companhia.

Informações antecipadas do inquérito mostram que a tripulação já havia percebido sinais de formação de gelo antes da queda. Os registros da cabine indicam comentários sobre o problema, tentativas de lidar com as condições meteorológicas e alertas relacionados ao sistema de degelo.

Em um dos momentos registrados, aproximadamente cinco minutos antes da perda de controle, o comandante fez uma brincadeira depois de ouvir um novo aviso sobre formação de gelo. Na sequência, a tripulação identificou uma falha no sistema pneumático responsável pelo degelo, considerado fundamental para a operação em condições de formação de gelo.

A investigação da PF busca estabelecer eventuais responsabilidades nas esferas criminal e civil. O trabalho é separado da apuração conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), cujo objetivo é determinar os fatores que contribuíram para o acidente e produzir informações que possam ajudar a evitar novas ocorrências.

Na viagem anterior, entre Guarulhos e Cascavel, a tripulação comentou sobre a quantidade de gelo acumulada no avião. O comandante chegou a relatar que parte do gelo havia se desprendido durante o trajeto.

Piloto: “Olha o gelo… o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.”

Depois do pouso, a tripulação demonstrou alívio com a conclusão do percurso.

Copiloto: “Muito bom, comandante.”

Piloto: “Chegamos vivos.”

Pouco tempo depois, a mesma aeronave voltou a operar, desta vez no voo 2283, que terminou com a morte dos 62 ocupantes.

Primeiro alerta apareceu durante a subida

Após a decolagem, ainda durante a subida, um alerta indicou uma falha no equipamento responsável pelo degelo da aeronave.

Piloto: “É o Airframe que deu fault… pode tirar, pode tirar… pelo menos a gente já sabe que tá…”

Conforme a investigação da Polícia Federal, a mensagem AIRFRAME FAULT estava relacionada a uma falha no sistema pneumático de degelo. O procedimento previsto pelo fabricante determinava que a aeronave saísse imediatamente da área onde havia formação de gelo. Segundo os investigadores, essa orientação não foi seguida.

Comandante comparou aeronave ao personagem Herbie

Com a continuidade dos alertas, o copiloto levantou a possibilidade de alteração da altitude para reduzir a exposição ao gelo.

Copiloto: “Pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”

O comandante respondeu fazendo referência ao personagem Herbie, conhecido por aparecer em filmes como um Fusca com características próprias.

Piloto: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie… Herbie, filme bem antigo.”

Segundo a PF, a sugestão de mudança para um nível de voo mais baixo não chegou a ser solicitada ao controle de tráfego aéreo.

Tripulação relatou aumento da formação de gelo

Já nas proximidades de São Paulo, os registros indicaram que a presença de gelo continuava sendo percebida pelos tripulantes.

Copiloto: “Bastante gelo.”

O copiloto voltou a tentar acionar o equipamento destinado ao degelo.

Copiloto: “Ligar o airframe.”

O comandante respondeu:

Piloto: “Essa bosta não tá funcionando, né?”

Copiloto: “É.”

Alertas se intensificaram antes da queda

Nos momentos que antecederam o acidente, os sistemas da aeronave passaram a emitir diversos avisos relacionados à redução do desempenho, perda de sustentação e proximidade com o terreno.

Copiloto: “Gelo.”

Na sequência, o sistema TAWS emitiu repetidamente o alerta:

TAWS: “Pull up… Pull up…”

A análise da investigação indica que aproximadamente 20 segundos separaram o aviso “Increase Speed” do começo do parafuso. De acordo com a perícia, ainda havia possibilidade de atuação da tripulação nesse intervalo.

Pouco depois, o avião entrou em estol e perdeu sustentação. A aeronave caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, provocando a morte de todas as 62 pessoas que estavam a bordo.

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