MPF denuncia 12 pessoas por queda do voo da Voepass que matou 62 pessoas em Vinhedo

Nayara Vieira
11 min de leitura

Denúncia aponta falhas recorrentes no sistema de degelo, suposta cultura de não reporte e decisões operacionais que, segundo o Ministério Público Federal, contribuíram para o acidente

A queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo, ganhou um novo capítulo com a apresentação da denúncia do Ministério Público Federal contra 12 pessoas ligadas à companhia aérea.

O documento, assinado em 21 de setembro de 2026, detalha uma sequência de falhas de manutenção, decisões operacionais e supostas omissões que, segundo o MPF, contribuíram para a queda do avião.

A denúncia tem como base elementos reunidos durante as investigações da Polícia Federal, documentos de fiscalização e conclusões apresentadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o Cenipa.

A apuração foi realizada pelo repórter Lucas Padula, para o Portal Paulo Mathias, a partir da íntegra da denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal e das manifestações relacionadas ao caso.

O acidente

O avião, um ATR 72-500, de matrícula PS-VPB, saiu de Cascavel, no Paraná, às 11h58 do dia 9 de agosto de 2024, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.

A bordo estavam 58 passageiros e quatro tripulantes.

Por volta das 13h22, a aeronave entrou em uma região de formação severa de gelo. De acordo com os elementos citados na denúncia, o avião perdeu sustentação, entrou em estol e, posteriormente, em uma rotação plana antes de atingir uma área residencial em Vinhedo.

As 62 pessoas que estavam a bordo morreram.

Segundo a conclusão pericial apresentada pelo MPF, a perda de controle da aeronave esteve relacionada à formação de gelo, agravada por falhas de manutenção e por omissões operacionais.

Falhas no sistema de degelo

Um dos principais pontos da denúncia é o histórico de problemas no sistema de proteção contra gelo da aeronave.

Segundo o MPF, foram identificadas falhas intermitentes e recorrentes no sistema de degelo, inclusive registros de alerta denominado “AIRFRAME FAULT” no voo do acidente e em três voos anteriores.

A denúncia afirma que tripulações teriam realizado resets do sistema durante os voos, mas que determinadas falhas não teriam sido registradas adequadamente no Technical LogBook, documento utilizado para o acompanhamento das condições técnicas da aeronave.

Para o Ministério Público, a ausência desses registros teria contribuído para que problemas conhecidos não fossem devidamente tratados antes de novos voos.

“Cultura de não reporte”

A denúncia apresenta ainda o que o MPF chama de uma suposta “cultura de não reporte” dentro da companhia.

De acordo com o órgão, documentos da Agência Nacional de Aviação Civil e depoimentos colhidos pela Polícia Federal indicariam que determinadas falhas técnicas não eram registradas com o objetivo de evitar a retirada de aeronaves de operação.

O MPF cita 96 processos de fiscalização da ANAC e dezenas de entrevistas realizadas durante a investigação.

Ainda segundo a acusação, documentos analisados apontaram problemas recorrentes relacionados ao sistema de degelo, testes periódicos e componentes com limites de utilização vencidos.

Para o Ministério Público, portanto, o acidente não teria sido consequência de um único evento, mas resultado de uma sequência de decisões e falhas que vinham ocorrendo antes da tragédia.

Aeronave teria sido enviada para região de gelo severo

Outro ponto destacado na denúncia envolve o planejamento do voo.

Segundo o MPF, a aeronave foi despachada para uma região que apresentava previsão de formação severa de gelo.

O documento afirma que o planejamento considerava o nível de voo FL170, enquanto havia um SIGMET indicando condições severas de gelo entre os níveis FL120 e FL210.

O Ministério Público também aponta que o ATR 72-500 não seria homologado para operar nas condições de gelo severo descritas na denúncia.

Além disso, o órgão cita a existência de problema no limpador de para-brisa do copiloto em um cenário de previsão de chuva.

“Beleza, deixa comigo”

Um dos episódios descritos na denúncia envolve o mecânico e líder de equipe Alex de Souza Leandro.

Segundo o MPF, uma tripulação teria informado que o sistema de degelo havia se desarmado espontaneamente.

Ainda de acordo com a denúncia, o funcionário teria respondido: “beleza, deixa comigo”.

O Ministério Público sustenta que, apesar do relato, os procedimentos necessários para solucionar o problema não teriam sido realizados adequadamente.

A acusação relaciona a atuação do funcionário aos voos PTB2204, PTB2282 e PTB2283.

No entendimento do MPF, os episódios anteriores demonstrariam que o problema já era conhecido antes do voo que terminou na tragédia de Vinhedo.

Estrutura de comando

A denúncia também apresenta um organograma da Voepass e descreve a participação de profissionais de diferentes áreas da empresa.

Entre os setores mencionados estão manutenção, operações, despacho operacional, controle operacional, segurança operacional e treinamento.

No topo da estrutura apresentada pelo MPF aparece José Luiz Felício Filho, proprietário e presidente da companhia.

Para o Ministério Público, decisões relacionadas à manutenção e à liberação de aeronaves envolviam diferentes níveis da estrutura empresarial.

A acusação sustenta que a responsabilidade pelos problemas não estaria limitada aos profissionais que atuavam diretamente na manutenção da aeronave.

Os 12 denunciados

O Ministério Público Federal denunciou:

Marcos Hiroyuki Sato; Alex de Souza Leandro; William Schmidt Agatz; Juliano Flores Pacheco; Raphael Limongi de Figueiredo; Marcel Sarquis Moura; Tiago Passucci Morani; Carlos Alberto Costa; Eric Consoli; Rafael Gimenez Rodrigues; David da Costa Faria Neto; e José Luiz Felício Filho.

As condutas atribuídas a cada um são diferentes e estão relacionadas às funções que exerciam dentro da estrutura da companhia.

O MPF sustenta, de forma geral, que as ações e omissões atribuídas aos denunciados contribuíram para a criação ou manutenção de situações de risco que culminaram no acidente.

Proprietário da Voepass também foi denunciado

José Luiz Felício Filho é apontado pelo MPF como a principal figura de comando da empresa.

Segundo a denúncia, ele teria autoridade máxima dentro da companhia e, de acordo com a acusação, não teria adotado medidas suficientes para impedir a continuidade de práticas relacionadas ao não reporte de falhas e à operação de aeronaves em condições inadequadas.

A defesa, porém, contesta essa interpretação.

O que diz a defesa de José Luiz Felício Filho

A defesa do proprietário da Voepass afirma que ele tomou conhecimento da denúncia e que irá se manifestar no processo no momento adequado.

Os advogados destacam os princípios do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal.

Segundo a defesa, no período do acidente, Felício Filho integrava o Conselho da Voepass e estava afastado da gestão direta e cotidiana da operação da companhia.

Ainda de acordo com os advogados, ele teria retomado a gestão executiva da empresa depois da queda do avião.

A defesa afirma também que o empresário colaborou com as autoridades desde o início das investigações e que continuará à disposição da Justiça para contribuir com o esclarecimento dos fatos.

O que diz a Voepass

Em manifestação sobre o caso, a Voepass afirmou que, com o andamento da denúncia na Justiça Federal, o processo seguirá os trâmites legais.

A companhia declarou que continuará colaborando com o Judiciário e com as autoridades responsáveis pela investigação.

A empresa também afirmou que, ao longo de sua trajetória na aviação brasileira, mantém a segurança operacional como princípio fundamental e que suas atividades seguem procedimentos de manutenção, operação e treinamento estabelecidos pela regulamentação aeronáutica e por suas diretrizes internas de segurança e conformidade.

Eduardo Busch não foi denunciado

Outro ponto importante da denúncia é a situação de Eduardo Magalhães Rodrigues Busch.

Apesar de ter ocupado posição de destaque na companhia, o MPF não apresentou denúncia contra ele e solicitou o arquivamento em relação ao executivo.

Segundo o Ministério Público, não foram encontrados elementos suficientes para demonstrar que Busch possuía conhecimento técnico na área de aviação ou controle efetivo sobre setores como o Centro de Controle Operacional e a manutenção.

Da investigação à Justiça

A Polícia Federal havia investigado e indiciado um número maior de pessoas. A denúncia apresentada pelo MPF, entretanto, foi direcionada contra 12 investigados.

Agora, caberá à Justiça Federal analisar a acusação e decidir sobre o recebimento da denúncia.

Caso a denúncia seja recebida, os acusados passarão a responder formalmente à ação penal, podendo apresentar suas defesas e produzir provas ao longo do processo.

É importante ressaltar que a apresentação da denúncia pelo Ministério Público não significa condenação. As acusações ainda serão submetidas à análise da Justiça, com direito ao contraditório e à ampla defesa.

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