Mineração da Braskem: relembre como solo afundou em Maceió e obrigou 60 mil pessoas a deixarem suas casas

Patricia Calderon
8 min de leitura
Braskem (Foto Reprodução)

A Braskem informou nesta segunda-feira (24) que pretende recorrer à recuperação extrajudicial para reorganizar uma dívida bilionária. A empresa, responsável pela exploração de sal-gema em Maceió, está ligada ao desastre que atingiu bairros da capital alagoana a partir de 2018, quando tremores, rachaduras e deformações no solo começaram a ser registrados em diferentes pontos da cidade.

A atividade de mineração na região teve início em 1976, quando a empresa Salgema Indústrias Químicas S/A começou a retirar sal-gema do subsolo. O material é utilizado na produção de soda cáustica e PVC. Depois de mudanças societárias e administrativas, a companhia passou a se chamar Trikem em 1996 e adotou o nome Braskem em 2002.

Como começou o problema em Maceió

Os primeiros sinais mais graves apareceram em fevereiro de 2018, quando grandes rachaduras surgiram em imóveis e vias do bairro do Pinheiro. Uma delas chegou a aproximadamente 280 metros. No mês seguinte, um tremor de magnitude 2,5 aumentou os danos e provocou novas crateras e fissuras.

A situação piorou no início de 2019. Em janeiro, parte do piso de um apartamento no Pinheiro cedeu de maneira repentina. Novos buracos apareceram na região, levando a Defesa Civil a interditar imóveis e vias. Nos meses seguintes, moradores do Mutange e do Bebedouro também passaram a relatar rachaduras e problemas estruturais.

Em maio daquele ano, o Serviço Geológico do Brasil confirmou a relação entre a atividade de extração de sal-gema da Braskem e a instabilidade registrada no solo dos bairros afetados.

Com o avanço dos problemas, começaram as primeiras retiradas de moradores do Pinheiro, Mutange e Bebedouro. Posteriormente, áreas do Bom Parto e do Farol também entraram no mapa de risco.

Em novembro de 2019, a Braskem anunciou que encerraria definitivamente a exploração de sal-gema em Maceió. A empresa iniciou então um projeto para fechar e estabilizar 35 poços, alguns deles com centenas de metros de profundidade.

O processo de desocupação atingiu mais de 14 mil imóveis e afetou cerca de 60 mil pessoas. Muitas das áreas que antes eram ocupadas por moradores passaram a apresentar ruas vazias e imóveis abandonados.

Ainda em 2019, a Braskem criou um programa de compensação financeira destinado aos proprietários de imóveis retirados das áreas consideradas de risco. Parte dos moradores, no entanto, contestou os valores oferecidos e recorreu à Justiça.

Demolições e acordos financeiros

Em janeiro de 2022, começou a demolição de aproximadamente 2 mil imóveis localizados na encosta do Mutange. A iniciativa fazia parte do projeto de estabilização e drenagem de uma área de cerca de 200 mil metros quadrados.

No ano seguinte, a Braskem fechou um acordo com a Prefeitura de Maceió para pagar R$ 1,7 bilhão em razão dos impactos provocados pelo afundamento do solo. O acordo foi firmado em janeiro de 2023.

Ao longo daquele ano, moradores do Bom Parto organizaram protestos para reivindicar a inclusão de imóveis no programa de compensação da empresa. Naquele momento, a Defesa Civil municipal afirmava que as residências em questão não apresentavam risco que justificasse a retirada.

O cenário mudou no fim de 2023. Depois de uma sequência de tremores, a Defesa Civil alertou para o “risco de colapso em uma das minas” nas proximidades da Lagoa Mundaú. Moradores do Bom Parto precisaram deixar suas casas por determinação judicial.

Em 29 de novembro, o Hospital Sanatório, localizado no Pinheiro, transferiu todos os pacientes para outras unidades de saúde diante das preocupações com a instabilidade na região.

Naquele período, o professor da Universidade Federal de Alagoas Abel Galindo, engenheiro civil especializado em geotecnia, avaliou que um eventual colapso da mina 18 poderia atingir estruturas próximas e provocar uma grande cratera na área da lagoa. Segundo ele, o impacto poderia alcançar dimensões comparáveis ao espaço ocupado pelo estádio do Maracanã e causar consequências graves ao ecossistema.

A gravidade da situação levou a Prefeitura de Maceió a decretar emergência. O governo federal reconheceu a situação em 1º de dezembro de 2023.

Poucos dias depois, em 10 de dezembro, parte da mina 18 se rompeu. De acordo com a Defesa Civil, a cavidade recebeu rocha e água da lagoa, o que contribuiu para a estabilização do local.

Investigações sobre a mineração

Também em 2023, a Polícia Federal deflagrou a Operação Lágrimas de Sal para investigar possíveis crimes relacionados ao afundamento do solo em Maceió. Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em Maceió, Rio de Janeiro e Aracaju.

Os efeitos da mineração continuaram sendo discutidos nos anos seguintes. Em 2025, a Defensoria Pública de Alagoas divulgou uma análise apontando que os impactos não estariam restritos às áreas oficialmente classificadas como de risco.

O estudo identificou sinais de afundamento em regiões como Flexal de Cima, Flexal de Baixo, Rua Marquês de Abrantes, no Bebedouro, e áreas do Bom Parto. Mesmo fora das zonas oficiais de risco, esses locais enfrentam o chamado “ilhamento socioeconômico”, permanecendo habitados por moradores.

A Defensoria chegou a recomendar a retirada das pessoas dessas áreas. A Defesa Civil informou que os locais continuavam sendo monitorados e que, naquele momento, não havia indicação técnica para ampliar as áreas de risco ou determinar novas realocações.

Em junho de 2025, moradores do Farol e do Pinheiro também relataram novas rachaduras em imóveis. A Defensoria Pública estadual realizou uma vistoria nos locais indicados.

Meses depois, em novembro, Braskem e governo de Alagoas anunciaram um acordo de R$ 1,2 bilhão. O pagamento foi previsto para ocorrer ao longo de dez anos. Na época, a empresa informou que já havia desembolsado R$ 139 milhões dentro do acordo.

Braskem vira ré em ação penal

Em 2026, a Justiça Federal em Alagoas recebeu uma denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra a Braskem, antigos dirigentes e profissionais ligados às atividades de mineração relacionadas ao desastre de Maceió.

Com a decisão, a empresa e os demais denunciados passaram a responder como réus na ação penal que investiga responsabilidades pelo desastre socioambiental.

Entre os crimes atribuídos pelo Ministério Público Federal estão poluição ambiental qualificada, apresentação de estudos ambientais considerados falsos ou enganosos, extração irregular de recursos minerais e dano qualificado ao patrimônio.

A crise provocada pela exploração de sal-gema, portanto, continua produzindo consequências financeiras, judiciais e sociais para a Braskem. Agora, o pedido de recuperação extrajudicial acrescenta uma nova frente ao processo enfrentado pela companhia desde o início do desastre em Maceió.

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