A hipótese de que componentes relacionados ao Alzheimer possam ser transferidos por meio de transfusões de sangue ainda não foi comprovada. Uma revisão publicada na revista The Lancet em 22 de agosto reuniu pesquisas sobre o comportamento da beta-amiloide, proteína associada à doença, e apontou mecanismos biológicos que precisam ser estudados com mais profundidade. Até o momento, os dados disponíveis não permitem afirmar que uma transfusão seja capaz de transmitir Alzheimer, e o eventual risco é considerado baixo.
A principal questão analisada pelos pesquisadores é se fragmentos de beta-amiloide poderiam passar de uma pessoa para outra durante procedimentos médicos. A possibilidade vem sendo discutida há anos e ganhou novos elementos a partir de estudos publicados na última década.
Em 2015, um estudo apontou que alterações relacionadas à beta-amiloide poderiam ser transferidas entre pessoas em determinadas situações médicas. Outras pesquisas realizadas posteriormente apresentaram resultados que também levantaram dúvidas sobre a possibilidade desse tipo de mecanismo.
Uma investigação publicada em 2018 indicou que instrumentos cirúrgicos contaminados poderiam transportar proteínas alteradas. O processo teria algumas semelhanças com o mecanismo observado em doenças provocadas por príons, nas quais proteínas anormais conseguem induzir alterações em outras proteínas.
A relação com as transfusões ganhou atenção após um estudo de grande escala realizado com dados de Dinamarca e Suécia e divulgado em 2023. Os pesquisadores observaram que pessoas que receberam sangue de doadores que posteriormente tiveram hemorragias cerebrais apresentaram uma maior incidência do mesmo problema anos depois.
Uma das hipóteses levantadas é que pequenas quantidades de beta-amiloide já estivessem presentes no sangue dos doadores antes do desenvolvimento da doença e pudessem ter sido transferidas durante a transfusão.
Os resultados, porém, não comprovam que o Alzheimer possa ser transmitido pelo sangue. Os próprios pesquisadores consideram que existem outras possíveis explicações para a associação identificada e afirmam que são necessários novos estudos para estabelecer uma relação de causa e efeito.
“Não temos informações suficientes para medir esse risco”, afirmou o neurologista John Collinge, um dos autores da revisão, em comunicado. Segundo ele, compreender melhor os possíveis mecanismos envolvidos deve ser uma prioridade para futuras pesquisas.
Os autores também apontam a necessidade de estudos que acompanhem pacientes durante períodos prolongados. Esse tipo de acompanhamento poderia ajudar a verificar se proteínas relacionadas ao Alzheimer são efetivamente transferidas pelo sangue e se isso teria alguma consequência para a saúde.
Entre as medidas sugeridas estão o acompanhamento de pessoas submetidas a transfusões frequentes e o desenvolvimento de biomarcadores capazes de identificar precocemente proteínas associadas à doença em possíveis doadores.
Apesar das dúvidas levantadas pela pesquisa, os autores reforçam que as transfusões continuam sendo consideradas procedimentos seguros e fundamentais para o atendimento médico, com benefícios amplamente conhecidos.
