Diretoria da Voepass orientava em grupo de WhatsApp que panes fossem omitidas, diz PF

Patricia Calderon
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Voepass (Foto Reprodução Redes Sociais)

A Polícia Federal identificou que integrantes da diretoria da Voepass orientavam funcionários a não lançar imediatamente no sistema oficial determinadas panes e irregularidades encontradas nas aeronaves da companhia. Segundo a investigação, a orientação era compartilhada em um grupo de WhatsApp e determinava que os problemas fossem informados apenas quando o avião retornasse à base da empresa, em Ribeirão Preto (SP). O grupo reunia nomes como o presidente da companhia, José Luiz Felício Filho, o gerente do Centro de Controle Operacional (CCO), Willian Agatz, o diretor técnico, Eric Consoli, e o chefe do CCO, Raphael Limongi de Figueiredo. Os quatro foram indiciados pela PF no inquérito que apura a queda da aeronave da empresa em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024, acidente que deixou 62 mortos.

A existência do grupo foi apresentada aos investigadores pelo despachante John Major Viana, que também está entre os 16 indiciados no processo. Conforme o relatório policial, integrantes da diretoria questionavam a equipe operacional sobre a possibilidade de “segurar” a liberação de uma aeronave e sugeriam que determinadas falhas fossem registradas somente na unidade principal da empresa.

A PF afirma que José Luiz Felício Filho tinha conhecimento dos problemas técnicos enfrentados pela frota da companhia. Em depoimento prestado na terça-feira (4), o executivo teria confirmado saber que algumas falhas não eram registradas imediatamente no livro de bordo. De acordo com o relatório, ele afirmou ter recebido alertas ao longo dos anos de representantes da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sobre esse comportamento entre pilotos.

“O que afasta qualquer alegação de desconhecimento superveniente do risco”, diz a PF no relatório sobre a investigação.

Segundo o documento, Felício também reconheceu que um sistema automatizado de acompanhamento dos dados de voo, capaz de apontar a repetição de problemas relacionados ao sistema antigelo, ainda não havia sido implantado até a data do acidente, apesar de a medida estar prevista nos planos da companhia.

“Declarou, ainda, ter sido piloto da própria empresa, com experiência pessoal na operação de aeronaves regionais e conhecimento direto da suscetibilidade desse tipo de aeronave a condições de gelo, o que afasta a tese de mero investidor alheio aos aspectos técnicos da operação”, afirma o relatório.

A Polícia Federal relata que o presidente da Voepass demonstrou ter ciência de que a área formal de segurança operacional da empresa atuava separadamente do núcleo apontado por testemunhas como responsável por pressionar funcionários a não comunicar falhas.

“Também não passou despercebido que o próprio Felício, ao ser instado a individualizar a conduta de cada envolvido, reconheceu expressamente que ‘a aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota’.”

Procurada para comentar a existência do grupo de WhatsApp e as declarações atribuídas ao presidente, a Voepass informou que mantém o posicionamento divulgado anteriormente após a apresentação do relatório da investigação.

A empresa afirmou que “a segurança operacional sempre foi sua prioridade”. “Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações.”

A companhia também declarou que a tripulação do voo 2283 era formada por profissionais experientes, habilitados e certificados, com mais de 5.000 horas de voo acumuladas. A Voepass afirmou ainda que colaborou com as autoridades desde o início das apurações e manifestou solidariedade às famílias das vítimas.

“Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional”, disse trecho da nota.

“A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.”

A Voepass informou ainda que não existe, até o momento, uma definição sobre a estratégia de defesa individual dos envolvidos que foram indiciados.

De acordo com a investigação da Polícia Federal, o acidente não teria ocorrido por uma única causa, mas por uma sequência de falhas relacionadas à operação e à manutenção da aeronave.

Os investigadores apontam que o avião foi autorizado a realizar uma rota com previsão de formação de gelo, embora o modelo ATR 72-500 não tivesse certificação para operar nessas condições específicas. Além disso, a aeronave apresentava problemas conhecidos no sistema de degelo, situação que, segundo a PF, deveria ter impedido sua liberação para o voo.

Os peritos também indicaram a existência de uma possível cultura organizacional voltada à redução de registros formais de panes e à manutenção da disponibilidade da frota acima das exigências de segurança operacional.

Segundo a análise da investigação, essa prática teria contribuído para a continuidade de falhas recorrentes até o momento em que a aeronave perdeu controle após o acúmulo de gelo nas superfícies aerodinâmicas.

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