Mulheres denunciam gerente de academia em BH por casos de gordofobia

Patricia Calderon
9 min de leitura
Mulheres denunciam gerente de academia em BH por casos de gordofobia (Foto Reprodução Redes Sociais)

Duas mulheres registraram uma representação criminal nesta quinta-feira (6/8) contra um gerente de academia do bairro Santa Mônica, na Região de Venda Nova, em Belo Horizonte. Elas acusam Marcelo Rocha de praticar atos de gordofobia. Uma terceira mulher também afirmou que pretende procurar as autoridades para relatar o caso.

A denúncia ganhou visibilidade após Dayane Magalhães de Oliveira, de 34 anos, publicar nas redes sociais um relato em que afirma ter sido ofendida pelo homem durante uma discussão no trânsito. Depois da repercussão, outras mulheres passaram a compartilhar experiências semelhantes envolvendo o mesmo suspeito. Até o momento, há pelo menos três relatos.

Vítimas relatam episódios de ofensas e ataques relacionados ao peso

Dayane contou que teria enfrentado uma situação semelhante há cerca de dez anos, mas decidiu não levar o caso à polícia na época. “Eu me calei. Fiz uma cirurgia bariátrica porque pensei: ‘Se um dono de academia está me chamando dessa forma, é a hora de procurar ajuda mesmo’”, afirmou.

Segundo ela, o reencontro com Marcelo ocorreu na última quinta-feira (30/7), durante uma situação no trânsito. A mulher relata que estava parada em uma sinalização quando o homem teria se aproximado do veículo e iniciado as agressões verbais.

“Eu parei numa parada obrigatória. Ele olhou com um olhar de raiva, bateu no capô do meu carro. Não sei se ele me reconheceu ou se viu que era uma pessoa gorda, mas começou a me xingar, me chamando de ‘gorda’, ‘baleia’ e ‘obesa’, enquanto fazia gestos ofensivos”, afirmou.

Dayane disse que decidiu ir até a academia para conversar com Marcelo, mas que ele não apareceu no local. Segundo ela, após a situação, gravou um vídeo relatando o ocorrido e publicou nas redes sociais.

“Fui até a academia, que ficava um quarteirão à frente, mas ele não apareceu. Eu estava muito nervosa e foi aí que gravei o vídeo“, relatou.

A publicação fez com que outras mulheres entrassem em contato com Dayane para contar histórias semelhantes. “Através do meu vídeo foram aparecendo vítimas atrás de vítimas. Agora estamos procurando a Justiça porque isso precisa parar. Não é uma, duas, três ou quatro mulheres. São várias. Muitas têm medo dele porque dizem que ele faz ameaças. Dessa vez, ele encontrou alguém que resolveu enfrentá-lo”, disse.

Carolina de Giácomo Silva, de 31 anos, acompanhou Dayane na busca por atendimento policial. Ela afirmou que teria sido alvo de um comentário feito por Marcelo em uma publicação nas redes sociais, em junho.

Segundo Carolina, o homem escreveu em uma foto dela: “Quando a bunda é feia não tem filó que esconda”. Após a mensagem, ela procurou Marcelo por meio de conversa privada para questionar o comentário.

“Ele disse que apareceu para ele e, como apareceu para ele, ele tem direito de se expressar. Disse que eu teria lipedema nos glúteos, sendo que eu não tenho essa doença, e ainda falou que eu precisava melhorar muito. Também disse que as pessoas que comentavam nas minhas fotos eram uns ‘machos escrotos’, se referindo ao meu marido”, relatou.

Carolina informou que esteve na delegacia nesta quinta-feira para iniciar os procedimentos e marcou o atendimento para segunda-feira, às 14h.

Modelo plus size também afirma ter sido alvo de comentário na internet

A maquiadora e modelo plus size Jennifer Corrêa, de 32 anos, também relatou ter recebido um comentário que considera gordofóbico atribuído a Marcelo. O episódio teria acontecido em maio, após uma loja de biquínis publicar um vídeo em que ela aparecia como modelo.

Segundo Jennifer, a publicação mostrava formas de vestir a peça para valorizar corpos gordos. O conteúdo teve grande alcance e, entre os comentários, ela afirma que Marcelo escreveu que o que “valorizaria” seu corpo seria fazer dieta.

“Tudo começou no dia 25 de maio, quando uma loja de biquíni muito grande de BH, onde eu sou modelo, publicou um vídeo mostrando a modelagem de um biquíni. Eles explicavam como vestir a peça para valorizar o meu corpo, representando um corpo gordo. O vídeo viralizou bastante e o Marcelo fez um comentário, em caixa alta, dizendo que o que valorizaria o meu corpo seria eu fazer uma dieta”, lembrou.

A modelo afirmou que o comentário não afetou sua autoestima, já que trabalha com conteúdos relacionados à aceitação corporal e autoestima. Ela disse estar “vacinada” contra esse tipo de manifestação.

“O que me choca é a falta de noção das pessoas de invadir o espaço do outro para fazer esse tipo de comentário. As pessoas começaram a criticá-lo e eu até pedi para a loja desativar os comentários. Para mim, o assunto tinha morrido ali”, contou.

Jennifer disse que voltou a lembrar do episódio depois que tomou conhecimento do relato de Dayane. Ao procurar o perfil de Marcelo, afirmou ter identificado que se tratava da mesma pessoa que havia comentado em sua publicação.

“Quando vi o caso da Dayane, entrei por curiosidade no perfil dele e reconheci a foto. Era a mesma pessoa que tinha comentado na minha publicação meses antes. Falei com ela e, depois disso, começaram a aparecer muitas outras mulheres relatando situações parecidas. Agora estamos nos unindo para representar contra ele“, disse.

A modelo informou que não esteve na delegacia na quinta-feira por morar em outra cidade, mas afirmou que pretende apresentar sua denúncia. “Como eu moro em outra cidade, a advogada vai trazer o meu caso para cá. Por isso, eu não fui hoje. Elas fizeram a representação, mas eu também vou à delegacia”, contou.

Defesa nega acusações e afirma que tomará medidas judiciais

A defesa de Marcelo Rocha afirmou, em nota, que ele não se recorda de conhecer Dayane e negou que tenham ocorrido as ofensas relatadas pelas denunciantes.

Segundo os advogados, no episódio envolvendo o trânsito, “ficou claramente demonstrado que o desejo de Daiane era atropelá-lo, pois, se ele não tivesse pulado para a frente, o veículo teria o atingido de forma grave, ocasionando sérios danos físicos”.

A defesa declarou ainda que Marcelo apenas teria dito que, caso fosse atingido, “iria quebrar o carro todo”. Os representantes também afirmaram que ele “não conhece Dayane, tampouco manteve com ela qualquer litígio há mais de 10 anos, conforme alegado”.

Ainda segundo a nota, “a vinculação da academia ao caso é ilegal e difamatória, pois o estabelecimento não possui qualquer envolvimento, já que os fatos sequer ocorreram em suas dependências”. A defesa informou que pretende adotar medidas legais por calúnia e difamação.

Os advogados também afirmaram que Marcelo não possui condenações criminais e que processos judiciais anteriores já foram encerrados com as partes envolvidas.

Sobre o caso envolvendo Carolina, a defesa alegou que ela teria ofendido a esposa de Marcelo e associado indevidamente a academia à discussão. “Ressaltamos que toda a situação teve início em uma publicação feita por um médico [uma terceira pessoa], ocasião em que as partes se desentenderam.” Segundo os advogados, a publicação mencionada foi removida.

A reportagem informou que procurou a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e aguarda resposta sobre o caso.

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