O menino de 10 anos resgatado no dia do próprio aniversário após ser encontrado trancado em um quarto durante uma operação em Goiânia enfrentava uma rotina de privação há meses, de acordo com o conselheiro tutelar José Roberto Silva, em entrevista exclusiva ao portal Paulo Mathias.
Trancado sozinho no apartamento, o menino não tinha acesso à água, ao banheiro ou à comida e precisava improvisar garrafas plásticas para realizar suas necessidades básicas.
Segundo José Roberto, o Conselho Tutelar recebeu uma denúncia anônima sobre uma possível situação de abandono de incapaz. Após o chamado, as equipes foram até o endereço informado para apurar o caso e solicitaram apoio da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros.
Durante a inspeção no imóvel, as equipes constataram um ambiente com acúmulo de lixo, alimentos estragados e falta de água potável e comida no cômodo onde o garoto era mantido.
“Todos que estavam ali, a polícia, os bombeiros, nós do Conselho Tutelar, ficamos chocados por conta do cheiro insuportável. O apartamento muito sujo, comida velha nas vasilhas, lixo no canto que eles iam fazendo as coisas, sujando. Eles tinham muito poucos móveis, eles dormiam no colchão no chão e muita bagunça, muita sujeira. Ela [mãe] tinha o hábito de que, lá no quarto dela, ela ia fazendo as refeições e largando as vasilhas sujas lá com as colheres. Roupa suja para todo lado, o banheiro um nojo, um lixo, transbordando de papel no chão, vaso cheio de urina”, destacou.
O jovem, que tem diabetes tipo 1, apresentou aumento da glicemia devido ao longo período sem se alimentar e foi encaminhado diretamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). “A glicemia dele tava muito alta, estava dando 500 devido ao período muito estendido que ele ficou sem almoçar, sem comer. Ele foi imediatamente encaminhado para UTI. Ele vai passar por uma nova avaliação neste sábado”, afirmou.
Segundo o conselheiro, o menino vivia apenas com a mãe, que foi presa em flagrante após deixá-lo trancado no apartamento enquanto saiu para trabalhar como garota de programa. Sem conseguir sair, a criança encontrou uma maneira improvisada de pedir ajuda.
“Ele não tinha acesso à cozinha, à comida, à água. E aí, de forma artesanal, ele pegou um cobertor dele e amarrou uma sacola na ponta do cobertor, porque ele mora no segundo piso. E sempre que ele via uma criança lá embaixo, algum adulto, ele pedia comida, pedia coisas”, explicou.
José também comentou durante a entrevista sobre o distanciamento do pai biológico, que mora no exterior e contribui apenas com o pagamento de uma pensão alimentícia de R$ 400. De acordo com ele, a mãe da criança enfatizou em depoimento na delegacia que o valor é insuficiente para cobrir as despesas. “Ela faz programa para sobreviver e pagar as despesas porque, segundo ela, o pai só ajuda com R$ 400 por mês, que não dá para comprar nem os remédios da criança”, ressaltou.
Atualmente, a avó materna acompanha o menino no hospital e deve assumir temporariamente a responsabilidade d menor após a alta médica. A Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) instaurou um inquérito para investigar as circunstâncias do caso.


