Anna Jarvis: como a criadora do Dia das Mães passou a criticar a própria criação

Douglas Lima
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Anna Jarvis - Foto: Divulgação

Nem sempre existiu o Dia das Mães, celebrado neste domingo (10). A data, hoje uma das mais importantes do calendário, tanto pelo significado simbólico quanto pelo impacto no comércio, teve sua origem na forte mobilização da ativista Anna Jarvis no início do século XX. Mas, afinal, por que ela passou a criticar a própria criação?

No Brasil, a data é celebrada no segundo domingo de maio. No entanto, a data varia ao redor do mundo, já que diferentes nações adotam critérios próprios, influenciados por tradições históricas, religiosas e culturais. No país, o Dia das Mães foi oficializado em 1932 por meio de um decreto assinado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882–1954).

A data surgiu com o objetivo de valorizar o amor materno e reforçar os laços familiares. Muitas pessoas — filhos, netos, irmãos e parceiros — reconhecem a data, mas nem todos conhecem a origem da tradição de dedicar um dia específico para celebrar o amor materno.

A versão moderna do Dia das Mães tem origem nos Estados Unidos, impulsionada pela ativista Anna Jarvis (1864-1948). Em 1908, ela promoveu a primeira celebração oficial em homenagem à sua mãe, Ann Reeves Jarvis, que era conhecida por seu trabalho como ativista social.

A motivação veio de uma oração que ouvia da matriarca, cujas palavras eram: “Espero e rezo para que alguém, um dia, reconheça um dia em memória das mães, para celebrar o serviço incomparável que elas prestam à humanidade em todas as áreas da vida.”

A mobilização liderada por Anna — uma mulher solteira e sem filhos — para transformar a homenagem em uma data nacional ganhou força ao longo dos anos. Ela iniciou sua campanha para instituir um dia dedicado às mães enviando, ao longo dos anos, cartas a congressistas, governadores, celebridades e outras personalidades influentes.

Alguns políticos não deram muita atenção à reivindicação e chegaram a ironizar o pedido, argumentando que, se a proposta fosse atendida, também seria necessário criar outras datas comemorativas, como um “Dia da Sogra”. Em 1914, o então presidente Woodrow Wilson, oficializou o segundo domingo de maio como o Dia das Mães no país.

Desde sua origem, a data carrega uma dualidade entre a homenagem afetiva às mães e a intensa exploração comercial que se desenvolveu ao redor da data. Com o tempo, a criadora da celebração, Anna, passou a se opor à forma como a comemoração foi apropriada pelo mercado, criticando o distanciamento do sentido original, então decidiu boicotá-la.

Jarvis passou a criticar duramente a exploração comercial da data, acusando comerciantes de se beneficiarem do evento de forma oportunista. Em suas manifestações, ela chegou a chamar esses agentes de “violadores de direitos autorais, vândalos comerciais e aproveitadores descarados”

Ela também protestou contra o aumento de preços em floriculturas no mês de maio e criticou a expansão da indústria de cartões comemorativos. Para ela, a verdadeira forma de homenagear as mães deveria ser por meio de gestos pessoais, especialmente cartas escritas à mão, e não por meio do consumo de produtos.

Ainda assim, esse modelo acabou se espalhando e sendo adotado em vários países, inclusive no Brasil. A data se firmou como uma das mais importantes para o varejo nacional e mundial, ficando atrás apenas do Natal em volume de vendas. O movimento do comércio é impulsionado sobretudo por setores ligados a presentes, como moda, perfumaria, eletrônicos e flores.

Desgostosa com tudo, com dívidas e depressão, teria dito a um jornalista antes de morrer, em 1948: “Lamento profundamente ter criado o Dia das Mães.”.

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