A Polícia Civil de São Paulo realizou uma operação de busca e apreensão contra a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) por suspeita de fraude e desvio de verbas em um contrato de sinal de Wi-Fi com a Prefeitura de São Paulo. A entidade, que compartilha endereço com a produtora responsável por um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, é investigada pela contratação que inicialmente era de R$ 108 milhões anuais e subiu para R$ 157,1 milhões após termos aditivos. Os mandados foram cumpridos em endereços ligados à dona da produtora e também na sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
O inquérito da 2.ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública (DICCA) apura se cerca de R$ 26 milhões foram utilizados sem a contraprestação dos serviços e aponta um possível direcionamento no chamamento público. Segundo as investigações, a ONG participou com exclusividade do processo, mesmo sem histórico ou capacidade técnica no setor de telecomunicações, já que sua atuação anterior era restrita a feiras de livros e eventos literários ou religiosos. O Ministério Público também acompanha o caso após indícios de que R$ 4 milhões em notas fiscais falsas ou canceladas teriam sido apresentados nas prestações de contas.
A equipe de investigação aponta ainda que os valores cobrados pelo serviço estão significativamente acima do mercado e das taxas praticadas por empresas públicas. Enquanto a Prodam (empresa de tecnologia do município) cobrava R$ 230,00 para a implantação e R$ 306,00 para a manutenção mensal por ponto, o acordo com a ONG fixou o repasse em R$ 1.800,00 mensais por ponto instalado. Além disso, a polícia afirma que houve repasses financeiros adiantados referentes a pontos que ainda não haviam sido entregues ou que apresentavam problemas de funcionamento.
O cronograma original previa a instalação de 5.000 pontos de conectividade na periferia até junho de 2025, mas apenas 3.200 foram concluídos até o momento, motivando a assinatura de três termos aditivos em curtos intervalos de tempo para justificar os atrasos. Em resposta aos acontecimentos, o prefeito Ricardo Nunes declarou que a gestão municipal não constatou irregularidades no processo administrativo, mas colocou-se à inteira disposição das autoridades policiais para colaborar ativamente com o andamento das investigações e tomar providências rigorosas caso qualquer desvio seja comprovado.
Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo rebateu as acusações e afirmou que o programa Wi-Fi Livre funciona normalmente, com a prestação de contas integralmente disponível de forma pública no sistema SEI e monitorada pelo Tribunal de Contas do Município (TCM). A administração esclareceu que não houve pagamento referente aos 5.000 pontos e que os aditivos cobrem apenas a manutenção das estruturas já instaladas. Por fim, o governo municipal ressaltou a legalidade do chamamento e argumentou que o custo atual por ponto em 2026 é consideravelmente inferior às propostas de mercado recebidas em anos anteriores.
