Nos últimos dias surgiu uma tese curiosa no debate esportivo: a rejeição inicial de parte da torcida do São Paulo à contratação de Roger Machado seria fruto de racismo.
O argumento foi levantado pelo apresentador da Cazé TV, Lucca Bopp, que afirmou que as críticas ao treinador são desmedidas e teriam fundo racial, além de defender que a carreira de Roger não pode ser tratada como de baixo nível.
Com todo respeito ao colega, essa leitura simplesmente não se sustenta.
Antes de qualquer coisa, é preciso deixar algo claro: racismo existe no futebol e precisa ser combatido sempre. Sem relativização, sem silêncio e sem desculpas. A luta antirracista é uma pauta séria e necessária.
Justamente por isso, usá-la de forma equivocada acaba sendo um problema.
Há um problema evidente quando qualquer crítica esportiva passa a ser imediatamente interpretada como racismo. Isso não fortalece o combate ao preconceito, pelo contrário. Quando tudo vira racismo, o termo perde força justamente nos momentos em que ele precisa ser usado com mais seriedade. A luta antirracista é importante demais para ser tratada como resposta automática a qualquer discordância futebolística.
Roger Machado, aliás, sempre teve postura firme no debate sobre racismo no futebol brasileiro. Sua participação nessa discussão é relevante e merece reconhecimento.
Mas essa dimensão da trajetória dele não pode substituir a análise esportiva.
A rejeição inicial de parte da torcida do São Paulo não nasce da cor da pele do treinador. Nasce do contexto.
Primeiro, da forma como Hernán Crespo foi demitido. Gostem ou não do argentino, o São Paulo vinha em crescimento e dividia a liderança do Campeonato Brasileiro com o Palmeiras. Não era um cenário de crise. É natural que uma mudança repentina gere irritação na torcida.
O segundo ponto é o histórico profissional de Roger Machado como treinador. Ele tem mais de uma década de carreira na função e, até hoje, não construiu campanhas realmente marcantes ou trabalhos que tenham mudado o patamar dos clubes por onde passou. Sua trajetória é marcada muito mais pela irregularidade do que por grandes resultados.
Isso não significa que seja um mau treinador. Mas explica perfeitamente por que sua contratação não gerou entusiasmo imediato.
A crítica da torcida é simples: futebol.
É o receio de que o São Paulo esteja trocando um trabalho que começava a evoluir por mais uma aposta incerta.
Uma vez anunciado, Roger Machado passa a ser o treinador do São Paulo e, como acontece com qualquer técnico que chega a um clube grande, a tendência natural é que receba apoio da torcida.
Mas uma coisa precisa continuar sendo possível no futebol: criticar decisões esportivas.
Questionar a trajetória de um treinador ou discordar de uma contratação não pode se transformar automaticamente em acusação moral.
Porque insinuar que a torcida do São Paulo é racista simplesmente por não gostar da escolha de um treinador não é análise esportiva. É uma simplificação de um debate que merece muito mais seriedade. É militância preguiçosa.
