Mensagens enviadas pela soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, a uma amiga revelam o clima de medo e o comportamento abusivo que ela enfrentava em seu casamento com o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Em conversas obtidas pela CNN Brasil, Gisele desabafava sobre o ciúme excessivo do marido, afirmando que ele “ficava cego” e chegando a prever o pior desfecho em uma mensagem alarmante: “qualquer hora me mata”. Relatos da família e do irmão da vítima descrevem um cotidiano de controle rigoroso, no qual o oficial a proibia de usar batom, salto alto e perfume, além de ter enviado um vídeo com uma arma na cabeça para ameaçá-la quando ela mencionou a separação.
Nesta segunda-feira (16), novos elementos foram adicionados ao inquérito com a apresentação de um áudio enviado por Gisele ao pai dias antes de sua morte. Na gravação, a policial planejava uma mudança para ficar mais próxima da família e facilitar a rotina com a filha pequena: “Pra mim é melhor ir aí na rua, entendeu? Quanto mais perto daí, melhor… De manhã eu vou sair muito cedo pra ir trabalhar… eu vou ter que deixar a Giovana dormindo aí”, explicou na ocasião. Para o advogado da família, Dr. Miguel Silva, o áudio reforça a intenção da soldado de deixar o apartamento no Brás e se afastar do ambiente conturbado em que vivia.
A investigação, que inicialmente apurava o caso como morte suspeita, agora aguarda dois laudos cruciais previstos para serem entregues ainda hoje: o resultado da exumação do corpo e o da reconstituição do crime. A perícia inicial já confirmou que Gisele morreu com um tiro na cabeça, mas também identificou lesões no rosto e no pescoço compatíveis com pressão de dedos e arranhões. Essas marcas de agressão física prévias ao disparo colocam em xeque a versão de suicídio sustentada pelo tenente-coronel e são fundamentais para a análise da Polícia Civil sobre o pedido de prisão do oficial.
Com base nas evidências de controle psicológico e violência física, as autoridades buscam determinar se o cenário encontrado no apartamento foi forjado ou se, de fato, houve uma luta corporal antes do tiro fatal. Enquanto o tenente-coronel permanece como foco central da investigação, a defesa da família de Gisele acredita que o conjunto de áudios, mensagens e laudos periciais aponta para um crime de feminicídio. A conclusão dos exames técnicos será o divisor de águas para que o Ministério Público e a Justiça decidam os próximos passos do processo criminal em São Paulo.
