O recente episódio envolvendo a chef Monique Benoliel na delicatessen Delly Gil, no Leblon, expõe uma face alarmante da intolerância no Rio de Janeiro. Ao tentar adquirir o matzá — pão ázimo central na celebração do Pêssach, que marca a libertação dos hebreus da escravidão —, Monique relatou ter sido confrontada com a recusa do proprietário, que afirmou estar “cansado de judeus”. O desabafo de seu filho, Pedro Benoliel, ressalta a gravidade do ocorrido ao pontuar que o antissemitismo se manifesta inicialmente em pequenas atitudes que, se não combatidas, ganham proporções perigosas na sociedade.
Este caso não é isolado e ocorre em um contexto de alta tensão geopolítica, alimentada pela guerra no Irã após a morte do aiatolá Ali Khamenei em ataques coordenados por EUA e Israel. Esse cenário, que afeta a economia global e a política doméstica de Donald Trump, tem gerado reflexos discriminatórios na cidade; na Lapa, o restaurante Partisan proibiu a entrada de cidadãos americanos e israelenses, postura apoiada pelo estabelecimento “O Porco Gordo”. Tais episódios demonstram como conflitos internacionais têm sido usados como pretexto para a segregação em espaços públicos e comerciais brasileiros.
Em resposta às denúncias, a Delly Gil emitiu uma nota afirmando ser uma empresa familiar que preza pelo respeito e pela convivência com a comunidade judaica. O estabelecimento pediu desculpas por possíveis interpretações inadequadas, alegando não compactuar com qualquer forma de preconceito. Paralelamente, a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) adotou medidas legais, resultando em uma multa de R$ 9 mil ao Partisan e na notificação formal da delicatessen do Leblon para prestar os esclarecimentos necessários às autoridades.
O enfrentamento jurídico e social dessas atitudes é essencial para garantir que o Rio de Janeiro não se torne um terreno fértil para a exclusão. Quando uma pessoa é impedida de comprar alimento por sua fé, especialmente durante uma celebração bíblica tão significativa quanto o Pêssach, fere-se a dignidade humana e a convivência democrática. O combate ao discurso de ódio e a responsabilização dos envolvidos reafirmam que o respeito à diversidade deve prevalecer, independentemente das turbulências políticas que moldam o cenário global atual.
