Por que Lula não queria que os EUA classificassem o PCC e o CV como organizações terroristas?

Nayara Vieira
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A recente decisão dos Estados Unidos de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras concretizou uma preocupação antiga do presidente Lula. Para o Palácio do Planalto e o Itamaraty, essa medida norte-americana é vista com desconfiança, pois há o receio de que a classificação sirva de pretexto para intervenções militares estrangeiras no território nacional. O temor baseia-se em ações recentes da gestão de Donald Trump, que desde julho de 2025 vem realizando bombardeios a embarcações na Venezuela sob a justificativa de combater o narcotráfico.

Em contrapartida à pressão de Washington, o governo brasileiro defende convictamente que o combate ao crime organizado é uma questão de soberania nacional. Como argumento de defesa, o presidente Lula destacou a aprovação da Lei Antifacção, uma legislação local projetada para sufocar as finanças e a estrutura dessas organizações sem a necessidade de interferência externa. Na visão do governo petista, o Brasil possui os mecanismos necessários para liderar essa linha de frente, enfatizando que o país não deve transferir a responsabilidade de sua segurança pública para os Estados Unidos.

Na tentativa de barrar a designação terrorista pelas autoridades americanas, Lula reuniu-se com Donald Trump na Casa Branca no início de maio para sugerir alternativas de cooperação bilateral. O líder brasileiro propôs formalmente que os Estados Unidos integrassem iniciativas regionais já existentes coordenadas pelo Brasil, em vez de tomarem medidas unilaterais. Entre os projetos apresentados estava o Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI) em Manaus, conhecido como “Polícia da Amazônia”, que articula forças policiais dos países vizinhos e da Interpol.

Além do CCPI, a diplomacia brasileira colocou na mesa o Consenso de Brasília, um bloco criado em 2023 para estreitar o intercâmbio de inteligência entre nações sul-americanas, com foco no bloqueio de sinais celulares em presídios. Lula detalhou ainda o plano nacional “Brasil contra o crime organizado”, estruturado no sufocamento financeiro das facções, segurança penal rígida e controle do tráfico de armas. Essas propostas visavam demonstrar que o governo brasileiro já possuía uma estratégia robusta em andamento para conter a expansão transnacional do crime.

Apesar dos esforços diplomáticos, o Departamento de Estado americano confirmou a inclusão das duas facções nas listas de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) e de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT). O secretário de Estado, Marco Rubio, classificou o PCC e o CV como as redes criminosas mais violentas do Brasil, responsabilizando-as por ataques diretos contra policiais e civis. A Casa Branca justificou a medida alegando que as ramificações dos grupos ultrapassam as fronteiras brasileiras, afetando a segurança interna dos próprios Estados Unidos com o fluxo de drogas ilícitas.

Mesmo com o evidente mal-estar provocado pela decisão unilateral, os dois países continuam atrelados por acordos pré-existentes no setor de segurança e inteligência. A Polícia Federal brasileira atua em sintonia com agências americanas para rastrear rotas de contrabando nas Américas e interceptar armamentos ilegais de fabricação norte-americana que abastecem o crime no Brasil. Agora, o cenário impõe um desafio diplomático delicado: manter o compartilhamento essencial de dados enquanto o governo brasileiro lida com os impactos jurídicos e políticos da nova rotulagem dada a suas facções domésticas.

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